Idade Moderna
- entre 1453 e 1789
A partir do século XV, Baião viveu mudanças profundas: o peso do Mosteiro de Ancede, a reorganização administrativa e os ecos das guerras peninsulares marcaram a sociedade. A agricultura manteve-se como base da economia, mas a modernidade começou a impor-se através de novas práticas, de reformas políticas e influências externas. É uma época de transição que prepara o concelho para os desafios do futuro.
Foral manuelino e poder régio
Em 1 de setembro de 1513, D. Manuel I concede foral a Baião, reforçando o poder régio e dando ao concelho uma autonomia administrativa mais clara, com relação direta entre o rei e os moradores (Alves, 2015, 19).
Concelho, couto de Ancede e elites locais
O período moderno fica marcado pela dupla magistratura dos poderes: o concelhio e o couto de Santo André de Ancede. Viver no couto significava usufruir de proteções e isenções que alimentaram tensões com os oficiais do concelho (Mata, 2016, 33-35). Em 1560, por iniciativa régia, o Mosteiro de Ancede é anexado ao Convento de São Domingos de Lisboa, passando dos Cónegos Regrantes para os Dominicanos (Mata, 2016, 60). Apesar da anexação, a casa monástica mantém grande capacidade económica: ergue a igreja atual, inaugurada no Natal de 1689, e amplia adegas e celeiros. A encomenda de obras e peças de arte — como o Tríptico de São Bartolomeu — evidencia o seu esplendor (Mata, 2016, 70-74).
Ao lado do poder monástico, alargam-se as elites locais: casas e linhagens como Cochêca (Mesquinhata), Casa de Balde (Santa Leocádia), Canastrês, Vale da Cunha, os Cabrais de Baião, Arcouce, Agrelos e Vila Nova (Santa Cruz do Douro) consolidam influência (Mata, 2016, 46-55; Cunha, 2021, 244). Muitas residências têm raízes medievais, reformadas na Época Moderna como sinal de estatuto (Cunha, 2021, 249). A estas casas e linhagens, somam-se ainda a presença de 23 ordens religiosas e militares com rendas agrárias no território (Mata, 2016, 66, 69).
Estruturas administrativas e religiosas
O quadro jurisdicional é complexo: além do couto de Ancede, coexistem honras e repartições de jurisdição (como Loivos da Ribeira e Valadares), com múltiplas tutelas civis e régias (Vieira, 2018, 44-45; Alves, 2015, 28). A malha administrativa apoia-se numa elite de oficiais (tabeliães, escrivães, juízes dos órfãos, entre outros), eixo do funcionamento jurídico local (Mata, 2016, 80-88).
A Igreja estrutura a vida social: multiplicam-se confrarias e irmandades (41 associações, por volta de 1758), com destaque para Nossa Senhora e Almas do Purgatório, em linha com o Concílio de Trento (Vieira, 2018, 54-55). As igrejas paroquiais sofrem reformas tridentinas (como torres sineiras e janelões e novas capelas-mores) e recebem retábulos barrocos centrados no Santíssimo Sacramento (Vieira, 2018, 60). O território acolhe cerca de 99 capelas — muitas privadas —, sinal de devoção e de prestígio das casas (Vieira, 2018, 67-70). Ancede sobressai pela densidade de património e peças devocionais, como a cruz processional (séc. XIV) e a Santa Luzia quinhentista (Cunha, 2021, 86).
População, economia e recursos
Demograficamente, regista-se forte crescimento: de ≈3 800 habitantes (1527) para ≈10 733 (meados do séc. XVIII), equivalendo a uma taxa de crescimento de cerca 282% (Mata, 2016, 25-26; Memórias Paroquiais). A variação entre freguesias explica-se pela altitude, a fertilidade dos solos e a proximidade ao Douro: Ancede lidera em nascimentos; Santa Comba de Telões apresenta mínimos persistentes (Cunha, 2021, 23, 25, 33, 44-45, 59).
A economia é rural e diversificada: casais, quintãs, vinhas e reguengos estruturam a propriedade (Mata, 2016, 118-131). Os principais produtos são o vinho (verde e maduro), o milho, o trigo, o centeio e a castanha. Produz-se ainda linho e azeite (escasso, levando o Mosteiro de Ancede a incentivar a plantação de olivais) (Mata, 2016, 44; Vieira, 2018, 81). A paisagem integra soutos (sobretudo em Teixeiró), caça miúda e pecuária diversificada (Vieira, 2018, 91, 147). A água suporta a produção, com levadas, açudes, moinhos e um pisão (Vieira, 2018, 96-97). No Douro, pesqueiras senhoriais capturam sobretudo lampreia (Mata, 2016, 151-155)
Contratos, impostos e comércio
As relações entre senhorios e foreiros baseiam-se no aforamento de três vidas (≈96 % dos contratos), garantindo estabilidade à exploração e rendas permanentes; há poucos arrendamentos de curto prazo (Mata, 2016, 161-163). Pesam múltiplos encargos e impostos sobre os agricultores, com pagamentos em géneros e/ou moeda – como a Jeira, a Colheita, os Votos de Santiago e o Dízimo – que coincidem com o calendário das colheitas e das festas litúrgicas (Mata, 2016, 141, 145, 194, 215, 217).
O comércio anima-se com as feiras e os mercados: em meados do século XVIII, contam-se 10 feiras em oito freguesias, com seis feiras francas (Vieira, 2018, 116-117). A mobilidade depende de uma rede densa de pontes (cerca de 44 estruturas identificadas, sendo 15 de pedra), situadas sobretudo no rio Ovil; os serviços postais são escassos e muitas freguesias dependem de Campelo, Mesão Frio ou Amarante (Vieira, 2018, 112-114).